sexta-feira, setembro 29, 2006

As minhas Fitas

Passar os limites da sensatez, esquecer o meu lado certinho e rígido e, uma vez na vida, cometer uma loucura. Saudável. Esquecer as regras e deixar-me levar apenas pelo coração. Ignorar a razão. Simplesmente ir.
Vários amigos me diziam: derruba esse muro que criaste à tua volta, tira esse ar sério. Solta-te, miúda!
Pensei no assunto. Tinha 25 anos e, de facto, dei-me conta de que tinha crescido cedo demais! Reprimia muitos desejos e vontades porque achava que, aos olhos dos outros, não estava certo. Então decidi: hoje vai ser diferente. Vou deixar-me levar pelos sentidos. Não quero pensar em mais nada. Carpe Diem!
Coimbra assistia a mais uma Queima das Fitas. As ruas estavam repletas de capas negras. O frenesim habitual da festa dos estudantes.
Ainda não tinha decidido para onde ir, quando o telemóvel tocou e, do outro lado, uma voz que me era familiar mas não reconheci à primeira. Um amigo dos tempos de liceu, agora elemento de uma banda de sucesso. Actuava essa noite no parque e gostava de me ver.
Boa, disse para comigo mesma. Vou conhecer a banda que faz tanto furor. Vai ser giro!
Rumei ao parque. O meu amigo veio buscar-me para me levar até ao back stage para conhecer os outros elementos do grupo. Assisti ao concerto em local privilegiado. Trauteei umas músicas, enquanto me divertia com os gritos histéricos das estudantes. Compreensível. O vocalista e o baixista são rapazes bem interessantes.
No final, era obrigatório percorrer as tasquinhas! E fomos. O vocalista deu-me a mão e arrastou-me para os shot’s. Não bebo álcool, retorqui. Pois, então, será uma estreia.
Bebidos alguns, fomos dançar, descalços, na relva fria e húmida do parque. Ouvimos aplausos, assobios e algumas bocas foleiras. Ignorei tudo. Como era bom estar ali, rodeada de milhares de pessoas, mas concentrada numa só.
Os nossos olhos cruzaram-se e as nossas bocas uniram-se, para um beijo, um longo beijo. Quando abri os olhos, constatei a desolação de muitas miúdas ali à volta. Azar! Aquele homem hoje e, só por hoje, era meu.
Foi em Coimbra, numa queima das fitas!

quinta-feira, setembro 28, 2006

Os bolos do Zé Sacristão

Tenho saudades de ir ali à frente da Igreja dos Olivais comprar um bolo. Quando fazia isso, ainda tinha de puxar a saia à minha mãe para lhe chamar a atenção. Normalmente, sussurrava-lhe ao ouvido o meu desejo e ela lá entrava na mercearia do Zé Sacristão (antigo sacristão de Santa Cruz). Era uma loja antiga, cujas portas eram de madeira azul clara, no aglomerado de casas agora desaparecido da frente da Igreja, bem ao cimo da Calçada do Gato. Lá dentro, debaixo do balcão de madeira alto, escondia-se um cesto com uma rede branca por cima. A minha mãe tinha de me pegar para eu ver os bolos debaixo da rede. Eu escolhia apontando com ar guloso. A mulher dele, uma senhora enorme, maciça, entregava-me o pastel de nata ou a pata de veado e eu lá vinha, Olivais fora, a lambuzar-me de creme… :)

sábado, setembro 23, 2006

Coimbra e o seu encanto...

Coimbra tem mais encanto na hora da despedida… A primeira vez que ouvi esta frase, há muitos anos, achei que era ridícula. Já tinha passado por Coimbra duas ou três vezes e não houve encanto especial. Quis o destino que viesse trabalhar e viver em Coimbra. Nos primeiros tempos, confesso que resisti à cidade. Estranhei, mas depois foi como Fernando Pessoa e a Coca-Cola, entranhei. E de facto, cada vez que deixo a cidade para umas férias, tenho SAUDADES de Coimbra, dos passeios de bicicleta no choupal (que poderia estar bem melhor organizado e limpo), das reflexões ao fim da tarde nas docas do rio, das conversas aparentemente sem nexo com o núcleo duro de amigas, da pastelaria fabulosa da Vasco da Gama (a minha perdição), enfim, de tantas outras pequenas coisas! Sempre que saio da cidade, vem-me à memoria “Coimbra tem mais encanto na hora da despedida”, a frase que eu tanto esnobei e que faz todo o sentido

sexta-feira, setembro 22, 2006

"Os Pirilampos"

_ Olha, “Os Pirilampos” estão abertos! – Os olhos deixavam transparecer saudade.
A minha mãe passou a infância em Celas, bem pertinho da Cruz. Ela viu nascer o Clube Desportivo de Celas, “Os Pirilampos”. Viu nascer e foi a “muito bailarico”, dizia-me com um sorriso maroto.
Pedi-lhe que me contasse, então, a origem d’”Os Pirilampos”. Apontou-me imediatamente para umas escadinhas.
_ Ali vivia um rapaz que não podia andar.
Tinha “um problema qualquer”. A minha mãe só sabia que, para ele, deslocar-se era complicado. Passava, por isso, muito tempo na cama. Nas noites de Verão, as janelas eram abertas para deixar entrar o ar estival.
Foi numa dessas noites que um pirilampo terá entrado pela janela. O facto deve ter tido relevância para o rapaz, porque ele nunca mais foi esquecido…
Era também no fim do dia que os amigos do moço o visitavam. Levaram as guitarras, as vozes quentes e a alegria para animar aquele quarto. Os serões eram tão divertidos que começou a juntar-se um grupo significativo de visitantes naqueles convívios. Tanto que decidiram sondar os vizinhos acerca da possível cedência de uma sala mais apropriada para os encontros.
Um dos vizinhos, que tinha ma casa vazia ali perto, lá cedeu os aposentos ao grupo.
Ainda hoje, a sede d’”Os Pirilampos” se situa na mesma casa, quase em frente à rua da Igreja.
A minha mãe garante que o jovem do pirilampo continuou a assistir aos convívios, já que os amigos faziam questão de o ir buscar. E, mais tarde, pôde até ir pelo próprio pé!
Também a minha mãe, mesmo depois de se mudar para lá das Igreja dos Olivais, não deixou de ir aos “bailaricos”.
Não sei se “Os Pirilampos” ainda fazem “bailaricos”, mas bem que eu gostava de voltar a levar lá a minha mãe…

quarta-feira, setembro 20, 2006

Umas das minhas canções de Coimbra preferidas...

Coimbra é uma lição
De sonho e tradição
O lente é uma canção
E a lua a faculdade
O livro é uma mulher
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer Saudade...
Coimbra do choupal
Ainda és capital
Do amor em Portugal, ainda...
Coimbra onde uma vez
Com lagrimas se fez
A história desta Inês, tão linda
Coimbra das canções
Tão meiga que nos pões
Os nossos corações, à luz
Coimbra dos doutores
Pra nós os teus cantores
A fonte dos amores és tu!
Coimbra é uma lição
De sonho e tradição
O lente é uma canção
E a lua a faculdade
O livro é uma mulher
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer, Saudade...
Coimbra do choupal
Ainda és capital
Do amor em Portugal, ainda...
Coimbra onde uma vez
Com lagrimas se fez
A história desta Inês, tão linda!
Coimbra das canções
Tão meiga que nos pões
Os nossos corações, à luz
Coimbra dos doutores
Pra nós os teus cantores
A fonte dos amores és tu!
O livro é uma mulher
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer, Saudade...

Coimbra dos Amores

A destruição da Alta? O Formidável? A construção do Bairro Norton de Matos? Ou talvez o renascimento da Queima das Fitas? Ou a fundação d’”Os Pirilampos”? Ou ainda uma homenagem à D. Arminda…?
São tantas as histórias da cidade que se torna difícil escolher por onde começar. Por isso, começo pelo que mais me surpreendeu.
Amo Coimbra. E sei que há quem sinta o mesmo. Sei-o de coração. Mas ouço-o poucas vezes e normalmente de quem vive fora. Por isso inaugurei este espaço. Para quem está de fora ter para onde voltar. E, para quem cá está, se revelar.
E foram tantos os que se revelaram!
Assim que enviei um convite colectivo, recebi respostas atrás de respostas. Recebi incentivos. Recebi saudades. Recebi histórias. Pessoais, como se querem. Fiquei MUITO feliz. Bastou alguém dizer uma palavra e Coimbra e os conimbricenses começaram a revelaram-se. Vamos ver o que acontece a seguir…
Deste blog espera-se muito (eu assumo que EU, pelo menos, espero muito!). Espero TANTO que não sei como o definir. Sei o que não espero... Não espero política. Não espero notícias. Não espero opiniões polémicas. Não é isso que se pretende. Há tantos locais onde tudo isto cabe, que não vale a pena inaugurar mais um.
Espero encontrar as origens de algumas instituições da cidade, descobrir as suas figuras típicas, encontrar as histórias que valem a pena contar sobre a “Cidade dos Doutores”. Espero saudade. Espero histórias que evoquem uma ideia colectiva de uma Coimbra que todos conhecemos, amamos e, em alguns casos, queremos recuperar. Será uma declaração de amor à cidade.
Convido toda a gente – equipa e comentadores – a contarem-nos como é a “sua Coimbra”.
É verdade que já não há fado nas ruas, mas ele ainda se sente em cada esquina da Alta e nos olhos dos mais velhos. Já não se escrevem cantigas ao Mondego, mas existem locais mais apropriados para a partilha de um beijo do que o Choupal ou a Lapa? E sim, já há mais “cidades dos doutores”, mas só nesta isso faz parte da nossa identidade, da nossa alma.
A Cidade dos Doutores é, para nós, a Cidade dos Amores… A tal onde ainda se aprende a dizer “saudade”…